Eu não consigo escrever sobre algumas coisas.
Escrever sobre coisas feias, por exemplo.
Fico com a sensação de que, por pior que seja a palavra,
Ela nunca é ruim o suficiente. Vai entender.
Falar sobre coisas bonitas é tarefa mais fácil.
Basta um “choque entre o azul e o cacho de acácias”
e pronto. Você já sabe que a dita cuja é linda.
Mas como alguém conseguiria descrever aquela mulher
que vi no supermercado na última noite de terça-feira?
A história do “choque” já seria um bom começo,
mas nesse caso seria um choque entre dois caminhões
carregados de rabanete, beterraba e fruta-pão.
Coisa triste de se ver mesmo.
Imediatamente, me veio a pergunta:
Alguém teria coragem de beijar essa mulher?
Quatro dias depois, enquanto dirigia de volta para casa,
vi um homem atravessando a rua. O sujeito era tão feio,
mas tão feio que se eu tivesse passado por cima teria feito
um enorme favor a ele e a toda a humanidade.
Foi quando pensei sozinho: taí, esse cara beijaria.
E ainda ia achar que estava fazendo o melhor negócio do mundo.
A conclusão que tirei disso tudo é um tanto óbvia:
Pra cada pessoa no mundo, existem seus correspondentes.
Coloquei “correspondentes” no plural, porque não sou muito adepto
dessa história de alma gêmea. Acredito mais na combinação de gostos.
Gente estranha gosta de gente estranha, gente alegre gosta
de gente alegre, gente bonita gosta de gente bonita.
(com exceção de gente bonita que gosta de gente feia milionária).
E é exatamente essa diversidade de gostos que move a economia,
que deixa o mundo mais intrigante, que faz o matuto lá
do interior de Pernambuco achar sua vizinha sem dentes
mais bonita que a Charlize Theron.
Eu odeio tutano de boi. Mas tenho certeza que existem por aí
milhares de pessoas que se matariam por um prato de tutano.
Então se você se acha uma pessoa sem graça, tímida
e ruim em matemática fique sabendo que milhares de seres humanos
gostam de pessoas sem graça, tímidas e ruins em matemática.
E assim ninguém nunca vai ser só nesse mundo.
Porque afinal existe gosto pra tudo.
Até mesmo praquela mulher do supermercado.
23 de jan. de 2008
11 de dez. de 2007
a separação, o metrô e o rim.
Dizem que a maior dor que uma mulher sente na vida é dor do parto.
E que a pior dor sentida por um homem é a dor de uma pedra no rim.
Como nunca passei por nenhuma delas, afirmo com toda convicção desse mundo que a maior dor que senti até hoje foi a dor da separação.
Separar de alguém que a gente não ama já é difícil,
Imagine então de quem a gente ainda morre de amor.
Não é nada fácil, você provavelmente deve saber.
É como se deitar numa cama de casal e acordar numa de solteiro.
Você estava acostumado com o espaço ao seu lado e, de repente, precisa se acostumar tudo de novo para não levar um tombo daqueles no meio da noite.
Mas a separação que dói mesmo é aquela que vem de surpresa.
Quando sem mais nem menos, tei buff, tudo se acaba.
Vou recorrer a uma metáfora que, provavelmente, vai dificultar o seu entendimento, mas melhorar em muito a estética desse texto.
Imagine um casal que há mais de 20 anos se encontra na mesma estação de metrô para, depois de um longo dia de trabalho, voltarem juntos para casa. Agora imagine que num belo dia, quando estão prestes a entrarem no vagão, a mulher se vira para o seu marido e diz que simplesmente não pode mais ir com ele. Que daquele momento em diante, ele precisa se acostumar a ir sozinho para casa. Que a estação dela agora é outra. Até logo. Adeus.
A porta se fecha. O metrô começa a andar.
Atordoado, o pobre coitado corre feito um louco até o último vagão só para prolongar por mais alguns segundos a visão da mulher que ficara na plataforma. Ele encosta as mãos no vidro da janela e, feito uma criança, se põe a chorar. À essas alturas, talvez sua mulher já tenha até se arrependido de sua decisão. Mas é tarde demais. O metrô nunca volta pra pegar um passageiro atrasado. Inconsolado, pensativo e vazio, ele se senta no lugar de sempre. Agora porém, está sozinho. Assim, sempre de cabeça baixa, ele mal percebe as centenas de pessoas que vão entrando e saindo do metrô a cada estação. Algumas delas, vendo a cara de desolação do pobre homem, chegam a puxar assunto na tentativa de reanimá-lo. Mas tentam em vão. Ele está preocupado apenas em olhar pela janela, na tentativa de ver sua mulher em qualquer uma das próximas estações. E assim, ele segue viagem. Mesmo sabendo que o mais certo, era descer na próxima parada e ir andando para casa. É mais ou menos assim que eu vejo uma separação. Claro que no sentido real, ela é bem mais dolorosa do que essa metáfora. Ai, ai, como eu preferia uma pedra no rim.
E que a pior dor sentida por um homem é a dor de uma pedra no rim.
Como nunca passei por nenhuma delas, afirmo com toda convicção desse mundo que a maior dor que senti até hoje foi a dor da separação.
Separar de alguém que a gente não ama já é difícil,
Imagine então de quem a gente ainda morre de amor.
Não é nada fácil, você provavelmente deve saber.
É como se deitar numa cama de casal e acordar numa de solteiro.
Você estava acostumado com o espaço ao seu lado e, de repente, precisa se acostumar tudo de novo para não levar um tombo daqueles no meio da noite.
Mas a separação que dói mesmo é aquela que vem de surpresa.
Quando sem mais nem menos, tei buff, tudo se acaba.
Vou recorrer a uma metáfora que, provavelmente, vai dificultar o seu entendimento, mas melhorar em muito a estética desse texto.
Imagine um casal que há mais de 20 anos se encontra na mesma estação de metrô para, depois de um longo dia de trabalho, voltarem juntos para casa. Agora imagine que num belo dia, quando estão prestes a entrarem no vagão, a mulher se vira para o seu marido e diz que simplesmente não pode mais ir com ele. Que daquele momento em diante, ele precisa se acostumar a ir sozinho para casa. Que a estação dela agora é outra. Até logo. Adeus.
A porta se fecha. O metrô começa a andar.
Atordoado, o pobre coitado corre feito um louco até o último vagão só para prolongar por mais alguns segundos a visão da mulher que ficara na plataforma. Ele encosta as mãos no vidro da janela e, feito uma criança, se põe a chorar. À essas alturas, talvez sua mulher já tenha até se arrependido de sua decisão. Mas é tarde demais. O metrô nunca volta pra pegar um passageiro atrasado. Inconsolado, pensativo e vazio, ele se senta no lugar de sempre. Agora porém, está sozinho. Assim, sempre de cabeça baixa, ele mal percebe as centenas de pessoas que vão entrando e saindo do metrô a cada estação. Algumas delas, vendo a cara de desolação do pobre homem, chegam a puxar assunto na tentativa de reanimá-lo. Mas tentam em vão. Ele está preocupado apenas em olhar pela janela, na tentativa de ver sua mulher em qualquer uma das próximas estações. E assim, ele segue viagem. Mesmo sabendo que o mais certo, era descer na próxima parada e ir andando para casa. É mais ou menos assim que eu vejo uma separação. Claro que no sentido real, ela é bem mais dolorosa do que essa metáfora. Ai, ai, como eu preferia uma pedra no rim.
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