4 de set. de 2007

A estória que eu sempre quis contar

Um deles tinha o nariz redondo e cheio de espinhas, a testa enrugada e uma barba grisalha que ia até quase a altura do peito. O outro era idêntico. À exceção da barba, onde ao contrário do seu irmão, o preto predominava sobre o branco. Era impossível estar num mesmo ambiente e não notar a presença daqueles dois gêmeos que há muito passaram dos setenta anos. A cidade inteira os conhecia pelo curioso apelido de Irmãos Evento. Não havia um único acontecimento em que eles não estivessem presentes. Festa de casamento, exposição fotográfica, vernissage, posse do novo governador. Se era um evento, lá estava a dupla. Eram pobres e nunca receberam um único convite, mas a seu favor, contavam com uma cara de pau inigualável e o mesmo terno azul surrado de sempre. Não tinha segurança ou guarda-costas com coragem suficiente para impedir a entrada dos irmãos. Muitas vezes a agenda de eventos ocupava o dia inteiro. Café da manhã para nomeação do novo presidente da Federação das Indústrias, almoço com os médicos participantes do Congresso Internacional de Otorrinolaringologia e de noite uma coisa mais leve, que tanto podia ser um baile de debutante, quanto a confraternização de uma empresa qualquer. Aos setenta e tantos anos, um dos irmãos acabou morrendo de tuberculose. Como tinham virado personagens quase folclóricos, a prefeitura organizou um grande funeral. Toda a cidade compareceu. Entre políticos, artistas, doutores e personalidades, uma ausência foi marcante: a do irmão do falecido. Justo o de barba mais preta.

14 de ago. de 2007

O primeiro dia

Será que eu estacionei na vaga do chefe?
Não, não. Não é possível.
Seria muito azar pra um primeiro dia só.
Digo, pra um primeiro dia de trabalho só.
Isso está me lembrando a época do colégio.
1994, Oitava Série A da Escola Pio XII.
Era o primeiro dia de aula e como eu não conhecia ninguém,
achei por bem chegar com duas horas de antecedência.
Assim, vendo os alunos entrarem um de cada vez a ansiedade seria menor.
Era o princípio das doses homeopáticas sendo aplicado na prática.
Princípio que teria funcionado se não fosse por um detalhe infeliz:
Eu tinha entrado na sala errada. O resultado já dá pra imaginar.
Fui obrigado a me dirigir para a sala certa que a essas alturas já estava completamente lotada e a professora, ah aquela desgraçada, ainda fez questão que eu explicasse pra turma inteira o motivo do meu atraso.
Até hoje, esse é um trauma que ainda não foi superado.
Agora estou aqui no primeiro dia de trabalho, quase 20 anos depois.
Cheguei à 7:30 pra um expediente que só começa depois das 9:00.
Por enquanto só conheci o Joílson, o manco da limpeza.
Como ainda não sei o meu lugar, resolvo ficar perambulando pela sala.
Observando os porta-retratos nas mesas e os adesivos nos monitores,
vou tentando deduzir as personalidades de cada um dos meus colegas.
É quando começa a bater a insegurança: será que eu estou bem vestido?
Ou pior, será que estou com mau hálito?
Sim, porque o primeiro dia de trabalho define toda sua reputação dentro de uma empresa. Principalmente quando o assunto são os apelidos.
Uma falha no primeiro dia e você fica conhecido para sempre como o cara do bafo, o cara da calça rasgada ou ainda como o cara que deu em cima da recepcionista.
Aos poucos, as pessoas vão entrando na sala.
O nervosismo atinge níveis cavalares. Fico torcendo por uma catástrofe.
Um incêndio no prédio vizinho. Joílson entrando com o corpo em chamas.
Qualquer coisa que tirasse a atenção sobre o novato, nesse caso, eu mesmo.
Acontece que para minha surpresa a sensação de desespero vai diminuindo.
Meus novos colegas parecem ser a simpatia em pessoa.
Começo a aceitar a idéia de cada um deles vai fazer o máximo pra que eu me sinta à vontade nesse novo emprego. Melhor pra mim.
O chefe entra na sala e, sem fazer cerimônia, grita pra todo mundo ouvir:
Quem é o filha da puta do Corsa preto?