11 de mar. de 2009
29 de jan. de 2009
SATURNO VOLTOU
Ao que tudo indica, esse será o pior mês de toda a minha vida. Não sou eu que estou dizendo isso. São os planetas. Nunca dei muita importância a horóscopos, mapas astrais, cabalas, nem rituais envolvendo sacrifícios de virgens e animais de pequeno porte. Mas uma curiosidade súbita, uma amiga insistente e vinte minutos de ócio me fizeram entrar num desses sites astrológicos que em 98% dos casos tocam uma música de fundo. E foi aí que a coisa deu um nó. Para meu espanto, descobri que estou vivendo uma verdadeira catástrofe planetária. Exatamente entre os dias 18 de janeiro e 18 de fevereiro desse ano, eu estarei sobre a influênca de nada mais, nada menos do que três terríveis fenômenos astrológicos. O primeiro deles e, sem dúvidas o mais conhecido de todos, é o tal do inferno astral. Aqueles trinta diazinhos ingratos que antecedem nosso aniversário. É nesse período que a gente costuma raspar o carro na pilastra da garagem, que o cartão do banco começa a dar mais “Problemas de Identificação” do que o normal e que todos os atendentes de telemarketing do mundo ligam pra você. Inclusive, é bem provável que um desses atendentes ligue exatamente na hora que você está raspando o carro na pilastra. Normalmente também coincide com o período em que você descobre que sua ex-namorada tá amando outra pessoa e em que sua diarista pede aumento, porque não é justo arrumar aquela bagunça toda por tão pouco dinheiro. O segundo fenômeno é uma tal de crise dos 7 anos. Não consegui entender o que ela faz, mas resumindo bem é uma crise que faz você repensar sua vida aos 7 (???), aos 14, aos 21, aos 28, aos 35 e assim vai, de 7 em 7 anos. Vale lembrar que onde eu digo “repensar” deve-se ler “achar a vida uma merda”. Por fim, o terceiro e mais interessante de todos os três fenômenos: o retorno de saturno. Explicando: entre os 28 e 30 anos, o tal planeta em questão se posiciona no mesmo local em que ele estava no momento de nascimento da pessoa e iniciará uma nova volta em torno do zodíaco. E o que porra isso significa? Significa, como disse o tal site da musiquinha, “o fechamento sobre todo o passado de dependência familiar, uma liberação final de tudo que ligava às servidões da infância e da adolescência, uma aquisição definitiva de autonomia. É o ponto final do caminho de relaxamento de responsabilidades dos pais sobre os filhos.” Se você acha isso bom, massa. Eu, particularmente, não acho. Ser mais responsável significa nunca mais poder abrir um Yakult no supermercado e tomar antes de passar pelo caixa. E se você está lendo tudo isso com um pé atrás, porque não acredita que uma simples conjunção planetária possa trazer má sorte pra pessoa, eu só tenho uma coisa a dizer. São onze horas da noite e eu estou escrevendo esse texto em plena sala de embarque do aeroporto. Meu vôo estava previsto pras 13h20, depois mudou para 15h40, depois para as 16:30, depois para as 19:50 até que chegou 22h30 e a mulherzinha da TAM veio dizer que o vôo estava cancelado. Enquanto todo mundo se levanta para protestar com raiva, eu me afasto de mansinho, torcendo para que ninguém, ninguém mesmo, descubra que tudo isso é culpa minha.
21 de dez. de 2008
QUE A GENTE SE ENCONTRE EM 2009. (Se você for homem, favor pular para o texto seguinte)
Vou usar o verbo “fuçar” porque junto com “apoquentar” é um dos meus preferidos e tenhos raríssimas opotunidades de empregá-los. Acredito piamente que essa seja uma delas. “Piamente” não é verbo, mas eu também adoro. Voltando. Ontem, antes de dormir, resolvi fuçar minha pasta de SPAM. (Mãe, uma pasta de SPAM é aquele lugar sombrio para onde são enviados os e-mails indesejados). Entre centenas de Enlarge Your Pennis e The Sexiest Girls Ever, encontrei um que me deixou inquieto. Era um cara dizendo que era eu mesmo, só que 40 anos mais velho. Pelos conselhos dele, não tive a menor dúvida. Era eu mesmo. O e-mail se resumia em cinco dicas importantes.
1. Nunca mais coma Cebolitos com Fanta Uva no café da manhã.
2. Quando for atravessar a rua em julho de 2025, não esqueça de olhar para o carro vermelho que vem pela esquerda.
3. Deixe de viadagem e pare de passar tanta porcaria nesse cabelo.
4. Em outubro de 2018, jogue esses números na megasena: (vou omitir os números porque eu não sou imbecil).
5. Aquela menina do elevador estava realmente olhando pra você.
Mas que puto. Por que ele não disse que menina era essa? Como ela era? Que elevador? Que prédio? Que dia? Agora vou ter que encarar todas as meninas, toda vez que entrar num elevador. Logo eu que adoro ficar olhando para os meus pés. Isso não está certo. E é por isso que eu estou aqui, agora, escrevendo esse texto. Para fazer um acordo com você. Se por um acaso do destino, você for essa tal menina do elevador, não seja tão discreta no seu olhar. Por favor, exagere um pouco mais. Grite, pule freneticamente, aperte o botão de alarme, dê um tapa no ascensorista. Qualquer coisa para que eu não deixe essa oportunidade passar de novo. E, se assim como eu, você não aguentar esperar até esse tal dia do elevador chegar, eu queria dizer que existem milhares de outras maneiras de eu identificar você. Se seu carro parar do lado do meu, por exemplo, abra o vidro e cante um trechinho da música de Marisa Monte que você está ouvindo no som. Se a gente se cruzar na seção de frigoríficos do supermercado, olhe pra mim e pergunte “você já experimentou esse Chandelle de Creme de Papaya com Cassis?”. E a melhor de todas. Se você estiver em Pipa nesse reveillon, quando der meia noite em ponto, ali na praia principal quase em frente à pastelaria, se aproxime de mim, bote suas duas mãos no meu rosto e diga apenas “sou eu”. O resto deixa que eu faço.
1. Nunca mais coma Cebolitos com Fanta Uva no café da manhã.
2. Quando for atravessar a rua em julho de 2025, não esqueça de olhar para o carro vermelho que vem pela esquerda.
3. Deixe de viadagem e pare de passar tanta porcaria nesse cabelo.
4. Em outubro de 2018, jogue esses números na megasena: (vou omitir os números porque eu não sou imbecil).
5. Aquela menina do elevador estava realmente olhando pra você.
Mas que puto. Por que ele não disse que menina era essa? Como ela era? Que elevador? Que prédio? Que dia? Agora vou ter que encarar todas as meninas, toda vez que entrar num elevador. Logo eu que adoro ficar olhando para os meus pés. Isso não está certo. E é por isso que eu estou aqui, agora, escrevendo esse texto. Para fazer um acordo com você. Se por um acaso do destino, você for essa tal menina do elevador, não seja tão discreta no seu olhar. Por favor, exagere um pouco mais. Grite, pule freneticamente, aperte o botão de alarme, dê um tapa no ascensorista. Qualquer coisa para que eu não deixe essa oportunidade passar de novo. E, se assim como eu, você não aguentar esperar até esse tal dia do elevador chegar, eu queria dizer que existem milhares de outras maneiras de eu identificar você. Se seu carro parar do lado do meu, por exemplo, abra o vidro e cante um trechinho da música de Marisa Monte que você está ouvindo no som. Se a gente se cruzar na seção de frigoríficos do supermercado, olhe pra mim e pergunte “você já experimentou esse Chandelle de Creme de Papaya com Cassis?”. E a melhor de todas. Se você estiver em Pipa nesse reveillon, quando der meia noite em ponto, ali na praia principal quase em frente à pastelaria, se aproxime de mim, bote suas duas mãos no meu rosto e diga apenas “sou eu”. O resto deixa que eu faço.
4 de dez. de 2008
um texto sem o menor valor literário
Hoje digitei as seguintes palavras no google “loirinha, bonita, simpática e que fale francês”. Tudo assim, entre aspas. Para minha surpresa, o google não encontrou nenhum resultado. Ou seja, vou ter que me casar com uma qualquer.
21 de nov. de 2008
Infelizmente, uma história real
Assim que vi Tâmara, 5 anos de idade, tentando vestir sua boneca com uma saia que claramente não cabia nela, eu sabia que levaria meses para esquecer aquela cena. Fazer uma visita à Casa de Apoio à Criança com Câncer tinha um significado todo especial pra mim. Daquele dia em diante, eu estava disposto a me tornar uma pessoa, digamos assim, com mais compaixão na alma. Sabia que o mundo precisava dessas coisas. O que eu não sabia era que eu estava totalmente despreparado para isso. Enquanto eu estava ali observando a menina, aproximou-se de mim uma voluntária da Casa, que percebendo minha curiosidade pela criança, contou-me sem fazer rodeios que os médicos não deram mais do que três meses de vida para Tâmara. E eu, que sempre acreditei que as pessoas só morriam depois de terem osteoporose ou implantarem uma ponte de safena, fique parado sem reação nenhuma. À medida que ia sentindo meus olhos se encherem de lágrimas, pensava em como a vida era traiçoeira para algumas pessoas. Era injusto demais imaginar que aquela menina, de apenas 5 anos de idade iria partir dessa vida sem nunca se preocupar com uma espinha que nasceu no seu rosto. Nunca iria bater um carro ou puxar a perninha do 0 pra ele virar um 9 no boletim. Não iria saber o que é amar duas pessoas ao mesmo tempo. O que é tomar a Pílula do dia seguinte ou fazer o teste de gravidez na farmácia, morrendo de ansiedade. Não iria ter um jantar romântico. Não iria ter um celular para colocar no silencioso quando entrasse no cinema. Nem iria ganhar apelidos na escola como Cabeção, Olivia Palito, Mosquito, Maçaneta. Não iria ter miopia, astigmatismo, nem muito menos catapora. Não iria ver duas copas do mundo. Não iria saber que 17:30 é a hora mais triste do planeta, principalmente quando é um domingo. Não iria aprender a traduzir a letra de “Yesterday” na aula de inglês, nem descobrir que Je t’aime é “Eu te amo” em francês. Não iria fazer uma maquete de uma estação de tratamento de água para a feira de ciências. Não iria saber que logaritmos é um dos assuntos mais chatos da matemática. Não iria ter medo de pouso e de decolagem, nem muito menos iria odiar barrinhas de cereais. Tâmara nunca iria saber o que realmente significam cinco anos. Na cabeça de uma criança, cinco anos talvez sejam muito tempo. Mas foi pouco para quem viu seu sorriso, seus olhos e seu jeitinho de dizer “posso ir no banheiro?”. E apesar de tudo isso, apesar de toda a tristeza que eu sentia, Tâmara continuava ali sentada no banquinho, jurando que aquela saia vai conseguir entrar na sua boneca.
10 de jun. de 2008
12 de junho
Em 12 de junho de 1931, dois tenentes da aeronáutica
embarcaram num vôo do Rio para São Paulo,
levando a bordo duas cartas comuns.
Era a primeira vez na história desse país
que uma correspondência seria transportada pelo ar.
Como naquele dia o vento estava muito forte,
a viagem durou bem mais do que o esperado.
Os dois tenentes chegaram tarde da noite em Sampa,
e como estava escuro acabaram pousando no lugar errado.
Resolveram então pegar um táxi até a Central dos Correios
onde finalmente puderam deixar as benditas cartas.
E sabe pra que tudo isso? Pra porra nenhuma.
Quantas pessoas sabem que depois desse episódio,
12 de junho virou oficialmente o Dia do Correio Aéreo Nacional?
Tá certo que grande parte disso é culpa dos Shoppings
Centers e das operadoras de telefone que, preocupados em
vender cada vez mais, fazem filmes lindos para
o Dia dos Namorados e esquecem do nosso estimado
Correio Aéreo Nacional. Esse órgão tão importante para
o nosso…o nosso…o nosso…o nosso espaço aéreo, claro.
Agora vamos aonde eu quero chegar com tudo isso.
Se você está aí solteira, abandonada em casa,
assistindo Um Lugar Chamado Notting Hill e tomando
sozinha um pote de Haagen Dazs de Macadamia.
Puta da vida porque hoje é 12 de junho e você
não tem motivo nenhum para comemorar,
está mais que na hora de mudar essa história.
Levante sua cabeça, estufe seu peito e sinta
um orgulho enorme pelo dia de hoje.
Chame seus amigos e suas amigas solteiras e vá
imediatamente para um barzinho mais próximo
Ergam seus copos e brindem ao nosso grande,
único e incomparável Correio Aéreo Nacional.
É o mínimo que se pode fazer para homenagear
esse homens que desde 1931 atravessam o céu,
levando suas cartas para lá e para cá do país.
Assim, eu espero que de hoje em diante
seus 12 de junho nunca mais sejam os mesmos.
E tenho dito.
embarcaram num vôo do Rio para São Paulo,
levando a bordo duas cartas comuns.
Era a primeira vez na história desse país
que uma correspondência seria transportada pelo ar.
Como naquele dia o vento estava muito forte,
a viagem durou bem mais do que o esperado.
Os dois tenentes chegaram tarde da noite em Sampa,
e como estava escuro acabaram pousando no lugar errado.
Resolveram então pegar um táxi até a Central dos Correios
onde finalmente puderam deixar as benditas cartas.
E sabe pra que tudo isso? Pra porra nenhuma.
Quantas pessoas sabem que depois desse episódio,
12 de junho virou oficialmente o Dia do Correio Aéreo Nacional?
Tá certo que grande parte disso é culpa dos Shoppings
Centers e das operadoras de telefone que, preocupados em
vender cada vez mais, fazem filmes lindos para
o Dia dos Namorados e esquecem do nosso estimado
Correio Aéreo Nacional. Esse órgão tão importante para
o nosso…o nosso…o nosso…o nosso espaço aéreo, claro.
Agora vamos aonde eu quero chegar com tudo isso.
Se você está aí solteira, abandonada em casa,
assistindo Um Lugar Chamado Notting Hill e tomando
sozinha um pote de Haagen Dazs de Macadamia.
Puta da vida porque hoje é 12 de junho e você
não tem motivo nenhum para comemorar,
está mais que na hora de mudar essa história.
Levante sua cabeça, estufe seu peito e sinta
um orgulho enorme pelo dia de hoje.
Chame seus amigos e suas amigas solteiras e vá
imediatamente para um barzinho mais próximo
Ergam seus copos e brindem ao nosso grande,
único e incomparável Correio Aéreo Nacional.
É o mínimo que se pode fazer para homenagear
esse homens que desde 1931 atravessam o céu,
levando suas cartas para lá e para cá do país.
Assim, eu espero que de hoje em diante
seus 12 de junho nunca mais sejam os mesmos.
E tenho dito.
4 de mai. de 2008
antes de entrar no elevador verifique se o mesmo encontra-se parado neste andar
Lembro daquela noite de quinta-feira.
Enquanto saía pela porta do apartamento, olhei para trás
a tempo de ver minha mãe resmungando baixinho:
Esse namoro não vai dar certo. Mas não vai mesmo.
Duas semanas depois e o som do quarto
tocando a versão acústica de “Deslizes” do Fagner denunciam:
A profecia materna havia se concretizado. Ora merda!
Como não podia deixar de ser, logo começa o drama existencial:
Por que eu sou tão teimoso?
Por que eu nunca escuto ninguém?
Ou principalmente: por que eu sempre me fodo no final?
Cansei, cansei, cansei. É preciso mudar.
Um life-turning-point, para soar mais inovador.
De agora em diante, não decidirei mais nada sozinho.
Escutarei atentamente todos os conselhos.
Especialmente os que comecem com “se eu fosse você”.
Onde houver um aviso, um alerta, uma orientação
Lá estarei eu pronto para obedecê-los.
Afinal, eles existem para que alguma coisa não dê errado.
Assim sendo, não vou mais dirigir acima dos 80 km/h.
Vou sorrir quando estiver sendo filmado.
Vou esperar 5 minutos com o condicionador no cabelo.
E depois enxaguarei em abundância.
Vou lembrar que os objetos no retrovisor parecem
mais longe do que realmente estão.
Vou comprar um livro que me ensine a ser um marido exemplar,
um executivo bem-sucedido e um touro indomável na cama.
Vou seguir os 10 mandamentos e vou esperar a bateria
do celular descarregar completamente.
Vou fazer silêncio no corredor do hospital.
Vou ler o manual antes de usar o aparelho.
E vou ter muito cuidado com o recheio quente
da torta de maçã da MC Donald´s.
Quem sabe assim, eu não colecione mais tantos erros,
não precise ouvir Fagner outra vez nessa vida,
nem leve uma queda quanto entrar no elevador.
.
Enquanto saía pela porta do apartamento, olhei para trás
a tempo de ver minha mãe resmungando baixinho:
Esse namoro não vai dar certo. Mas não vai mesmo.
Duas semanas depois e o som do quarto
tocando a versão acústica de “Deslizes” do Fagner denunciam:
A profecia materna havia se concretizado. Ora merda!
Como não podia deixar de ser, logo começa o drama existencial:
Por que eu sou tão teimoso?
Por que eu nunca escuto ninguém?
Ou principalmente: por que eu sempre me fodo no final?
Cansei, cansei, cansei. É preciso mudar.
Um life-turning-point, para soar mais inovador.
De agora em diante, não decidirei mais nada sozinho.
Escutarei atentamente todos os conselhos.
Especialmente os que comecem com “se eu fosse você”.
Onde houver um aviso, um alerta, uma orientação
Lá estarei eu pronto para obedecê-los.
Afinal, eles existem para que alguma coisa não dê errado.
Assim sendo, não vou mais dirigir acima dos 80 km/h.
Vou sorrir quando estiver sendo filmado.
Vou esperar 5 minutos com o condicionador no cabelo.
E depois enxaguarei em abundância.
Vou lembrar que os objetos no retrovisor parecem
mais longe do que realmente estão.
Vou comprar um livro que me ensine a ser um marido exemplar,
um executivo bem-sucedido e um touro indomável na cama.
Vou seguir os 10 mandamentos e vou esperar a bateria
do celular descarregar completamente.
Vou fazer silêncio no corredor do hospital.
Vou ler o manual antes de usar o aparelho.
E vou ter muito cuidado com o recheio quente
da torta de maçã da MC Donald´s.
Quem sabe assim, eu não colecione mais tantos erros,
não precise ouvir Fagner outra vez nessa vida,
nem leve uma queda quanto entrar no elevador.
.
27 de mar. de 2008
72
Quando eu digo sofrer de uma certa obsessão mórbida,
o “mórbida” em questão não é só uma força de expressão.
Agora mesmo, encontrei esse tal site na internet.
Que promete dizer com precisão a data do meu falecimento.
É só responder algumas poucas perguntas, apertar o “enviar”,
e aguardar cerca de 10 segundos, não sem uma certa suadeira no mouse.
Pronto. Tá lá o dia da sua partida. O dia do “The End”.
Antes que você pergunte, eu me adianto:
Não, não vejo mal nenhum nisso. Do fundo do meu coração.
Nunca tive medo de morrer. Muito pelo contrário.
Sempre achei a morte uma coisa fascinante.
E, pelo visto, a humanidade inteira parece concordar comigo.
Abaixo seguem as provas.
Primeiro, qual é o símbolo máximo da igreja católica?
Exatamente, a cruz. O Lugar em que Cristo morreu.
Vê se alguém tem em casa uma manjedoura pendurada na parede da sala.
Continuando...
Por que não se reza uma missa sete dias depois que a pessoa nasce?
Por que existe uma valsa fúnebre e nenhuma trilha para o nascimento?
Por que o túmulo do Jim Morrison é mais visitado que a maternidade da Edith Piaf?
Eu respondo. Porque morrer desperta mais curiosidade do que nascer.
Duvido muito que uma roda de curiosos se formaria na rua pra ver uma mulher parindo na calçada.
Compare os filmes então.
Para falar de nascimento, besteiróis do tipo: Três solteirões e um bebê, Uma babá quase perfeita, Ninguém Segura esse Bebê.
Já para falar de morte, clássicos como: Morte em Veneza, A Morte lhe Cai Bem, O Morro do Ventos Uivantes (hihihi).
Sem falar na indústria literária, que emplaca best-sellers como:
1000 lugares para conhecer antes de morrer.
Se mudassem o nome para “1000 lugares para conhecer depois de nascer”, o livro não teria vendido nem 150 exemplares.
Sim e antes que eu me esqueça.
De acordo com o tal site lá, eu viverei até os 72. Uffa.
Deve ser por isso que estou falando tão tranquilo assim sobre o assunto.
Certeza.
Se a previsão fosse para antes dos 30 anos,
esse texto provavelmente seria sobre outra coisa.
Como o feriado da semana santa ou a importância das tupperwares.
o “mórbida” em questão não é só uma força de expressão.
Agora mesmo, encontrei esse tal site na internet.
Que promete dizer com precisão a data do meu falecimento.
É só responder algumas poucas perguntas, apertar o “enviar”,
e aguardar cerca de 10 segundos, não sem uma certa suadeira no mouse.
Pronto. Tá lá o dia da sua partida. O dia do “The End”.
Antes que você pergunte, eu me adianto:
Não, não vejo mal nenhum nisso. Do fundo do meu coração.
Nunca tive medo de morrer. Muito pelo contrário.
Sempre achei a morte uma coisa fascinante.
E, pelo visto, a humanidade inteira parece concordar comigo.
Abaixo seguem as provas.
Primeiro, qual é o símbolo máximo da igreja católica?
Exatamente, a cruz. O Lugar em que Cristo morreu.
Vê se alguém tem em casa uma manjedoura pendurada na parede da sala.
Continuando...
Por que não se reza uma missa sete dias depois que a pessoa nasce?
Por que existe uma valsa fúnebre e nenhuma trilha para o nascimento?
Por que o túmulo do Jim Morrison é mais visitado que a maternidade da Edith Piaf?
Eu respondo. Porque morrer desperta mais curiosidade do que nascer.
Duvido muito que uma roda de curiosos se formaria na rua pra ver uma mulher parindo na calçada.
Compare os filmes então.
Para falar de nascimento, besteiróis do tipo: Três solteirões e um bebê, Uma babá quase perfeita, Ninguém Segura esse Bebê.
Já para falar de morte, clássicos como: Morte em Veneza, A Morte lhe Cai Bem, O Morro do Ventos Uivantes (hihihi).
Sem falar na indústria literária, que emplaca best-sellers como:
1000 lugares para conhecer antes de morrer.
Se mudassem o nome para “1000 lugares para conhecer depois de nascer”, o livro não teria vendido nem 150 exemplares.
Sim e antes que eu me esqueça.
De acordo com o tal site lá, eu viverei até os 72. Uffa.
Deve ser por isso que estou falando tão tranquilo assim sobre o assunto.
Certeza.
Se a previsão fosse para antes dos 30 anos,
esse texto provavelmente seria sobre outra coisa.
Como o feriado da semana santa ou a importância das tupperwares.
17 de fev. de 2008
malditos eufemismos
- Pára Luiz Otávio, pára, pááára.
- O que foi dessa vez?
- Eu não consigo fazer amor assim. Não adianta.
- Assim como?
- Assim. Com você olhando pra toda a decoração do quarto menos pra mim.
- Eu estou fazendo isso?
- Você olha pro criado-mudo, olha pra infiltração na parede, olha até pro cesto de roupas sujas.
- Mas querida, a gente não podia parar agora. Eu já estava quase lá.
- Lá onde Luiz Otávio? Na persiana da janela?! Pra mim tem que ter olhos nos olhos, senão a coisa não acontece.
- Olha Ana, se você quer mesmo saber, eu conto. Mas depois não venha me mandar dormir no sofá ou na área de serviço.
- To esperando.
- Tem uma coisa em você que está me incomodando. É esse negócio aí em cima da sua boca. Pronto, disse.
- Meu nariz?
- Não. Entre ele e a boca.
- O meu buço? O que tem meu buço?
- Não sei dizer direito, mas parece que eu estou transando com a Frida Kahlo ou o Fidel Castro. É um lance meio brochante. É melhor a gente ir dormir.
- Ah, mas não vai mesmo. Agora você vai me explicar essa história direitinho.
- Eu tenho um bloqueio natural contra mulheres de bigode. Deve ser um trauma de infância. Só pode. Vai ver meus pais faziam ameaças do tipo “tome toda a vitamina de banana senão a mulher de bigode vem te pegar.”
- O certo é buço. Mulher tem buço, não bigode.
- Pra mim buço é só um jeito carinhoso de chamar bigode. Puro eufemismo. E o seu está cada dia maior.
- Mas por que você nunca me falou disso antes?
- É uma coisa difícil de se dizer. E além do mais, você só começou com essa mania de transar com a luz acesa há pouco tempo.
- Quer saber, pra mim tudo isso é uma desculpa. Você não tem mais atração por mim e fica querendo botar a culpa na porra de um buço.
- Não é frescura, Ana. Quer ver só: qual a comida que eu mais odeio na vida?
- Pata de caranguejo.
- Exatamente. Você nunca parou pra pensar que ela é cheia de cabelinhos?
- Meu Deus. Isso é uma doença.
- O que custa passar a gilete, me diga? Em 2 minutinhos ta resolvido.
- É só que aí cresce mais grosso.
- Qual o problema? Se a idéia é não deixar crescer nunca. Faz todo dia, oras.
- Olha, vamos dormir que é melhor. Amanhã, a gente conversa sobre isso. Me dá pelo menos um beijo de boa noite.
- Posso apagar a luz antes?
- O que foi dessa vez?
- Eu não consigo fazer amor assim. Não adianta.
- Assim como?
- Assim. Com você olhando pra toda a decoração do quarto menos pra mim.
- Eu estou fazendo isso?
- Você olha pro criado-mudo, olha pra infiltração na parede, olha até pro cesto de roupas sujas.
- Mas querida, a gente não podia parar agora. Eu já estava quase lá.
- Lá onde Luiz Otávio? Na persiana da janela?! Pra mim tem que ter olhos nos olhos, senão a coisa não acontece.
- Olha Ana, se você quer mesmo saber, eu conto. Mas depois não venha me mandar dormir no sofá ou na área de serviço.
- To esperando.
- Tem uma coisa em você que está me incomodando. É esse negócio aí em cima da sua boca. Pronto, disse.
- Meu nariz?
- Não. Entre ele e a boca.
- O meu buço? O que tem meu buço?
- Não sei dizer direito, mas parece que eu estou transando com a Frida Kahlo ou o Fidel Castro. É um lance meio brochante. É melhor a gente ir dormir.
- Ah, mas não vai mesmo. Agora você vai me explicar essa história direitinho.
- Eu tenho um bloqueio natural contra mulheres de bigode. Deve ser um trauma de infância. Só pode. Vai ver meus pais faziam ameaças do tipo “tome toda a vitamina de banana senão a mulher de bigode vem te pegar.”
- O certo é buço. Mulher tem buço, não bigode.
- Pra mim buço é só um jeito carinhoso de chamar bigode. Puro eufemismo. E o seu está cada dia maior.
- Mas por que você nunca me falou disso antes?
- É uma coisa difícil de se dizer. E além do mais, você só começou com essa mania de transar com a luz acesa há pouco tempo.
- Quer saber, pra mim tudo isso é uma desculpa. Você não tem mais atração por mim e fica querendo botar a culpa na porra de um buço.
- Não é frescura, Ana. Quer ver só: qual a comida que eu mais odeio na vida?
- Pata de caranguejo.
- Exatamente. Você nunca parou pra pensar que ela é cheia de cabelinhos?
- Meu Deus. Isso é uma doença.
- O que custa passar a gilete, me diga? Em 2 minutinhos ta resolvido.
- É só que aí cresce mais grosso.
- Qual o problema? Se a idéia é não deixar crescer nunca. Faz todo dia, oras.
- Olha, vamos dormir que é melhor. Amanhã, a gente conversa sobre isso. Me dá pelo menos um beijo de boa noite.
- Posso apagar a luz antes?
23 de jan. de 2008
um chinelo velho, um pé cansado.
Eu não consigo escrever sobre algumas coisas.
Escrever sobre coisas feias, por exemplo.
Fico com a sensação de que, por pior que seja a palavra,
Ela nunca é ruim o suficiente. Vai entender.
Falar sobre coisas bonitas é tarefa mais fácil.
Basta um “choque entre o azul e o cacho de acácias”
e pronto. Você já sabe que a dita cuja é linda.
Mas como alguém conseguiria descrever aquela mulher
que vi no supermercado na última noite de terça-feira?
A história do “choque” já seria um bom começo,
mas nesse caso seria um choque entre dois caminhões
carregados de rabanete, beterraba e fruta-pão.
Coisa triste de se ver mesmo.
Imediatamente, me veio a pergunta:
Alguém teria coragem de beijar essa mulher?
Quatro dias depois, enquanto dirigia de volta para casa,
vi um homem atravessando a rua. O sujeito era tão feio,
mas tão feio que se eu tivesse passado por cima teria feito
um enorme favor a ele e a toda a humanidade.
Foi quando pensei sozinho: taí, esse cara beijaria.
E ainda ia achar que estava fazendo o melhor negócio do mundo.
A conclusão que tirei disso tudo é um tanto óbvia:
Pra cada pessoa no mundo, existem seus correspondentes.
Coloquei “correspondentes” no plural, porque não sou muito adepto
dessa história de alma gêmea. Acredito mais na combinação de gostos.
Gente estranha gosta de gente estranha, gente alegre gosta
de gente alegre, gente bonita gosta de gente bonita.
(com exceção de gente bonita que gosta de gente feia milionária).
E é exatamente essa diversidade de gostos que move a economia,
que deixa o mundo mais intrigante, que faz o matuto lá
do interior de Pernambuco achar sua vizinha sem dentes
mais bonita que a Charlize Theron.
Eu odeio tutano de boi. Mas tenho certeza que existem por aí
milhares de pessoas que se matariam por um prato de tutano.
Então se você se acha uma pessoa sem graça, tímida
e ruim em matemática fique sabendo que milhares de seres humanos
gostam de pessoas sem graça, tímidas e ruins em matemática.
E assim ninguém nunca vai ser só nesse mundo.
Porque afinal existe gosto pra tudo.
Até mesmo praquela mulher do supermercado.
Escrever sobre coisas feias, por exemplo.
Fico com a sensação de que, por pior que seja a palavra,
Ela nunca é ruim o suficiente. Vai entender.
Falar sobre coisas bonitas é tarefa mais fácil.
Basta um “choque entre o azul e o cacho de acácias”
e pronto. Você já sabe que a dita cuja é linda.
Mas como alguém conseguiria descrever aquela mulher
que vi no supermercado na última noite de terça-feira?
A história do “choque” já seria um bom começo,
mas nesse caso seria um choque entre dois caminhões
carregados de rabanete, beterraba e fruta-pão.
Coisa triste de se ver mesmo.
Imediatamente, me veio a pergunta:
Alguém teria coragem de beijar essa mulher?
Quatro dias depois, enquanto dirigia de volta para casa,
vi um homem atravessando a rua. O sujeito era tão feio,
mas tão feio que se eu tivesse passado por cima teria feito
um enorme favor a ele e a toda a humanidade.
Foi quando pensei sozinho: taí, esse cara beijaria.
E ainda ia achar que estava fazendo o melhor negócio do mundo.
A conclusão que tirei disso tudo é um tanto óbvia:
Pra cada pessoa no mundo, existem seus correspondentes.
Coloquei “correspondentes” no plural, porque não sou muito adepto
dessa história de alma gêmea. Acredito mais na combinação de gostos.
Gente estranha gosta de gente estranha, gente alegre gosta
de gente alegre, gente bonita gosta de gente bonita.
(com exceção de gente bonita que gosta de gente feia milionária).
E é exatamente essa diversidade de gostos que move a economia,
que deixa o mundo mais intrigante, que faz o matuto lá
do interior de Pernambuco achar sua vizinha sem dentes
mais bonita que a Charlize Theron.
Eu odeio tutano de boi. Mas tenho certeza que existem por aí
milhares de pessoas que se matariam por um prato de tutano.
Então se você se acha uma pessoa sem graça, tímida
e ruim em matemática fique sabendo que milhares de seres humanos
gostam de pessoas sem graça, tímidas e ruins em matemática.
E assim ninguém nunca vai ser só nesse mundo.
Porque afinal existe gosto pra tudo.
Até mesmo praquela mulher do supermercado.
11 de dez. de 2007
a separação, o metrô e o rim.
Dizem que a maior dor que uma mulher sente na vida é dor do parto.
E que a pior dor sentida por um homem é a dor de uma pedra no rim.
Como nunca passei por nenhuma delas, afirmo com toda convicção desse mundo que a maior dor que senti até hoje foi a dor da separação.
Separar de alguém que a gente não ama já é difícil,
Imagine então de quem a gente ainda morre de amor.
Não é nada fácil, você provavelmente deve saber.
É como se deitar numa cama de casal e acordar numa de solteiro.
Você estava acostumado com o espaço ao seu lado e, de repente, precisa se acostumar tudo de novo para não levar um tombo daqueles no meio da noite.
Mas a separação que dói mesmo é aquela que vem de surpresa.
Quando sem mais nem menos, tei buff, tudo se acaba.
Vou recorrer a uma metáfora que, provavelmente, vai dificultar o seu entendimento, mas melhorar em muito a estética desse texto.
Imagine um casal que há mais de 20 anos se encontra na mesma estação de metrô para, depois de um longo dia de trabalho, voltarem juntos para casa. Agora imagine que num belo dia, quando estão prestes a entrarem no vagão, a mulher se vira para o seu marido e diz que simplesmente não pode mais ir com ele. Que daquele momento em diante, ele precisa se acostumar a ir sozinho para casa. Que a estação dela agora é outra. Até logo. Adeus.
A porta se fecha. O metrô começa a andar.
Atordoado, o pobre coitado corre feito um louco até o último vagão só para prolongar por mais alguns segundos a visão da mulher que ficara na plataforma. Ele encosta as mãos no vidro da janela e, feito uma criança, se põe a chorar. À essas alturas, talvez sua mulher já tenha até se arrependido de sua decisão. Mas é tarde demais. O metrô nunca volta pra pegar um passageiro atrasado. Inconsolado, pensativo e vazio, ele se senta no lugar de sempre. Agora porém, está sozinho. Assim, sempre de cabeça baixa, ele mal percebe as centenas de pessoas que vão entrando e saindo do metrô a cada estação. Algumas delas, vendo a cara de desolação do pobre homem, chegam a puxar assunto na tentativa de reanimá-lo. Mas tentam em vão. Ele está preocupado apenas em olhar pela janela, na tentativa de ver sua mulher em qualquer uma das próximas estações. E assim, ele segue viagem. Mesmo sabendo que o mais certo, era descer na próxima parada e ir andando para casa. É mais ou menos assim que eu vejo uma separação. Claro que no sentido real, ela é bem mais dolorosa do que essa metáfora. Ai, ai, como eu preferia uma pedra no rim.
E que a pior dor sentida por um homem é a dor de uma pedra no rim.
Como nunca passei por nenhuma delas, afirmo com toda convicção desse mundo que a maior dor que senti até hoje foi a dor da separação.
Separar de alguém que a gente não ama já é difícil,
Imagine então de quem a gente ainda morre de amor.
Não é nada fácil, você provavelmente deve saber.
É como se deitar numa cama de casal e acordar numa de solteiro.
Você estava acostumado com o espaço ao seu lado e, de repente, precisa se acostumar tudo de novo para não levar um tombo daqueles no meio da noite.
Mas a separação que dói mesmo é aquela que vem de surpresa.
Quando sem mais nem menos, tei buff, tudo se acaba.
Vou recorrer a uma metáfora que, provavelmente, vai dificultar o seu entendimento, mas melhorar em muito a estética desse texto.
Imagine um casal que há mais de 20 anos se encontra na mesma estação de metrô para, depois de um longo dia de trabalho, voltarem juntos para casa. Agora imagine que num belo dia, quando estão prestes a entrarem no vagão, a mulher se vira para o seu marido e diz que simplesmente não pode mais ir com ele. Que daquele momento em diante, ele precisa se acostumar a ir sozinho para casa. Que a estação dela agora é outra. Até logo. Adeus.
A porta se fecha. O metrô começa a andar.
Atordoado, o pobre coitado corre feito um louco até o último vagão só para prolongar por mais alguns segundos a visão da mulher que ficara na plataforma. Ele encosta as mãos no vidro da janela e, feito uma criança, se põe a chorar. À essas alturas, talvez sua mulher já tenha até se arrependido de sua decisão. Mas é tarde demais. O metrô nunca volta pra pegar um passageiro atrasado. Inconsolado, pensativo e vazio, ele se senta no lugar de sempre. Agora porém, está sozinho. Assim, sempre de cabeça baixa, ele mal percebe as centenas de pessoas que vão entrando e saindo do metrô a cada estação. Algumas delas, vendo a cara de desolação do pobre homem, chegam a puxar assunto na tentativa de reanimá-lo. Mas tentam em vão. Ele está preocupado apenas em olhar pela janela, na tentativa de ver sua mulher em qualquer uma das próximas estações. E assim, ele segue viagem. Mesmo sabendo que o mais certo, era descer na próxima parada e ir andando para casa. É mais ou menos assim que eu vejo uma separação. Claro que no sentido real, ela é bem mais dolorosa do que essa metáfora. Ai, ai, como eu preferia uma pedra no rim.
20 de nov. de 2007
a menina do assento 16D
Uma turbulênciazinha, por favor.
Uma nuvem escura e chuvosa, vai.
Qualquer coisa que faça esse avião balançar.
Que faça as luzes de emergência se acenderem,
as máscaras de oxigênio caírem automaticamente
e a menina do meu lado segurar a minha mão.
Eu sou uma dessas pessoas que nunca teve a sorte
de sentar ao lado de uma menina bonita no avião.
E olha que oportunidades já tiveram muitas.
Mas logo hoje, aconteceu. E aconteceu com força.
Sou péssimo em descrições, mas vou tentar fazer um esforço.
O sorriso era o da Cameron Diaz, a testa era a da Scarlett Johansson,
o queixo era o da Penélope Cruz e as pernas eram as da Sharapova.
Chego meu corpo um pouco mais perto.
De modo que nossas pernas se toquem.
É incrível como mesmo nessa idade,
a gente ainda tem prazeres com coisas tão insignificantes.
O problema agora é a aproximação. O diálogo inicial.
Avião é um péssimo lugar para se puxar assunto.
O que eu vou perguntar?
Se a barrinha de cereal dela tá gostosa?
Se ela viu aquele avião da TAM que caiu?
Se alguma vez ela precisou usar o saquinho de vômito?
Me inclino um pouco para frente e faço cara de menino carente,
na esperança de que ela se vire para olhar pra mim.
Vai, olha pra mim, olha pra mim, olha pra mim.
Olha pra mim, olha pra mim.
Olha pra mim, cacete.
Nada acontece.
Repentinamente ela se levanta e vai para a frente do avião.
Era a oportunidade que eu tanto esperava.
Na volta, eu juro que vou dizer alguma coisa.
Uma coisa criativa, marcante, romântica.
Que faça ela se lembrar pra sempre desse vôo.
Lá vem minha garota. Linda e maravilhosa.
Para a minha surpresa, é ela quem fala comigo:
- Licença, você se incomoda de trocar de lugar com meu namorado?
É que ele tá sentado lá na frente e a gente queria tanto ficar junto.
Uma nuvem escura e chuvosa, vai.
Qualquer coisa que faça esse avião balançar.
Que faça as luzes de emergência se acenderem,
as máscaras de oxigênio caírem automaticamente
e a menina do meu lado segurar a minha mão.
Eu sou uma dessas pessoas que nunca teve a sorte
de sentar ao lado de uma menina bonita no avião.
E olha que oportunidades já tiveram muitas.
Mas logo hoje, aconteceu. E aconteceu com força.
Sou péssimo em descrições, mas vou tentar fazer um esforço.
O sorriso era o da Cameron Diaz, a testa era a da Scarlett Johansson,
o queixo era o da Penélope Cruz e as pernas eram as da Sharapova.
Chego meu corpo um pouco mais perto.
De modo que nossas pernas se toquem.
É incrível como mesmo nessa idade,
a gente ainda tem prazeres com coisas tão insignificantes.
O problema agora é a aproximação. O diálogo inicial.
Avião é um péssimo lugar para se puxar assunto.
O que eu vou perguntar?
Se a barrinha de cereal dela tá gostosa?
Se ela viu aquele avião da TAM que caiu?
Se alguma vez ela precisou usar o saquinho de vômito?
Me inclino um pouco para frente e faço cara de menino carente,
na esperança de que ela se vire para olhar pra mim.
Vai, olha pra mim, olha pra mim, olha pra mim.
Olha pra mim, olha pra mim.
Olha pra mim, cacete.
Nada acontece.
Repentinamente ela se levanta e vai para a frente do avião.
Era a oportunidade que eu tanto esperava.
Na volta, eu juro que vou dizer alguma coisa.
Uma coisa criativa, marcante, romântica.
Que faça ela se lembrar pra sempre desse vôo.
Lá vem minha garota. Linda e maravilhosa.
Para a minha surpresa, é ela quem fala comigo:
- Licença, você se incomoda de trocar de lugar com meu namorado?
É que ele tá sentado lá na frente e a gente queria tanto ficar junto.
30 de out. de 2007
O Fim
- Você também está na fila pro banheiro?
- Infelizmente.
- Absurdo, né? Um único banheiro pra homens e mulheres. Coisas de Recife.
- Pelo menos, está andando rápido.
- Perdoe pelo mau jeito, mas a gente não se conhece?
- Acho difícil. É minha primeira vez na cidade.
- Espera, eu estou reconhecendo sim. Você é aquela...aquela atriz...puta merda, você é a Natalie Portman.
- Sou eu mesmo...mas olha, hoje eu estou num péssimo dia.
- Você não está entendendo, você é a mulher da minha vida. Não tem uma única noite em que eu não pense em você ou naquela peruca roxa que você usou em Closer. Você é fantástica, Naty. Posso te chamar assim?
- Você é louco, mas até que é divertido.
- Meu Deus, a Natalie Portman me achou divertido.
- Pena que a gente só tenha se conhecido no final da noite.
- Final? Final é apenas uma questão de ponto de vista.
- Han?!
- Esse nosso encontro, por exemplo. Pode ser um final, se a história for sobre um cara que nunca encontra ninguém interessante e, quando ele finalmente desiste de procurar, acaba se esbarrando com a Natalie Portman na fila do banheiro. Mas também pode ser o início, se for uma história sobre como a gente se conheceu, teve filhos e continuou se amando na velhice.
- Vamos considerar a primeira possibilidade.
- Então a questão passa a ser outra: o que aconteceria depois desse final?
- Nada, oras. Final é final. Não tem “depois”.
- Esse é o grande erro do cinema, Naty. Achar que no final tudo se acaba. Você nunca se pergunta o que vai acontecer com o mocinho e a mocinha do filme depois que a tela fica preta e os créditos começam a subir? Sim, porque eles não vão simplesmente desaparecer do mundo. Eles vão ter que continuar. E talvez aquele último beijo apaixonado que o pessoal do cinema presenciou vá dar lugar a uma vida comum e rotineira, onde o mocinho descubra que sofre de infecção intestinal e a mocinha resolve fazer um tratamento para varizes.
- Meu Deus, você é realmente louco.
- Não sou, juro. Eu só acho que não é porque esse texto está chegando ao fim que a nossa história também tenha que terminar. A gente vai ter que continuar, mesmo separados, mesmo que as pessoas já estejam lendo a crônica de Maria Rita sobre os sonhos.
- E onde você quer chegar com isso?
- Eu só queria saber como vai ser nossa história daqui a cinco minutos, quando ninguém mais estará lendo ela.
- Olha meu amigo, com a sua história eu sinceramente não sei. Mas a minha eu espero que já esteja acontecendo lá dentro banheiro.
- Infelizmente.
- Absurdo, né? Um único banheiro pra homens e mulheres. Coisas de Recife.
- Pelo menos, está andando rápido.
- Perdoe pelo mau jeito, mas a gente não se conhece?
- Acho difícil. É minha primeira vez na cidade.
- Espera, eu estou reconhecendo sim. Você é aquela...aquela atriz...puta merda, você é a Natalie Portman.
- Sou eu mesmo...mas olha, hoje eu estou num péssimo dia.
- Você não está entendendo, você é a mulher da minha vida. Não tem uma única noite em que eu não pense em você ou naquela peruca roxa que você usou em Closer. Você é fantástica, Naty. Posso te chamar assim?
- Você é louco, mas até que é divertido.
- Meu Deus, a Natalie Portman me achou divertido.
- Pena que a gente só tenha se conhecido no final da noite.
- Final? Final é apenas uma questão de ponto de vista.
- Han?!
- Esse nosso encontro, por exemplo. Pode ser um final, se a história for sobre um cara que nunca encontra ninguém interessante e, quando ele finalmente desiste de procurar, acaba se esbarrando com a Natalie Portman na fila do banheiro. Mas também pode ser o início, se for uma história sobre como a gente se conheceu, teve filhos e continuou se amando na velhice.
- Vamos considerar a primeira possibilidade.
- Então a questão passa a ser outra: o que aconteceria depois desse final?
- Nada, oras. Final é final. Não tem “depois”.
- Esse é o grande erro do cinema, Naty. Achar que no final tudo se acaba. Você nunca se pergunta o que vai acontecer com o mocinho e a mocinha do filme depois que a tela fica preta e os créditos começam a subir? Sim, porque eles não vão simplesmente desaparecer do mundo. Eles vão ter que continuar. E talvez aquele último beijo apaixonado que o pessoal do cinema presenciou vá dar lugar a uma vida comum e rotineira, onde o mocinho descubra que sofre de infecção intestinal e a mocinha resolve fazer um tratamento para varizes.
- Meu Deus, você é realmente louco.
- Não sou, juro. Eu só acho que não é porque esse texto está chegando ao fim que a nossa história também tenha que terminar. A gente vai ter que continuar, mesmo separados, mesmo que as pessoas já estejam lendo a crônica de Maria Rita sobre os sonhos.
- E onde você quer chegar com isso?
- Eu só queria saber como vai ser nossa história daqui a cinco minutos, quando ninguém mais estará lendo ela.
- Olha meu amigo, com a sua história eu sinceramente não sei. Mas a minha eu espero que já esteja acontecendo lá dentro banheiro.
9 de out. de 2007
A Promessa
- E se eu abrir o biscoito e tirar o recheio?
- Não adianta. Sempre sobra uma melequinha.
- Mas é tão pouquinho, seu padre.
- Promessa é promessa.
- O que Deus vai ganhar se eu deixar de comer chocolate?
- Você fez uma promessa. E prometer é abrir mão de uma coisa para conseguir outra.
- Mas eu não entendo por que é pecado comer chocolate?
- Não é pecado comer chocolate. Pecado é quebrar uma promessa que, no seu caso, foi não comer chocolate.
- Se em vez de chocolate, eu tivesse dito beterraba, a promessa também funcionaria?
- Você ama beterraba?
- Blargh, detesto.
- Então não adianta. É preciso que seja um sacrifício.
- Sexo!?
- Por favor senhorita, isso aqui é casa de Deus!
- Os cientistas ingleses provaram que o prazer de comer chocolate se compara ao de fazer sexo. Eu passo dois anos sem transar e pronto, vai ter sido um sacrifício do mesmo jeito.
- Você já prometeu que seria chocolate. Agora é tarde.
- Mas na hora da promessa, eu falei “chocolate” tão baixinho, padre. Mal deve ter dado pra escutar lá de cima.
- E você pediu para que santo, minha filha?
- Pedi pra santo nenhum não.
- Complicou mais ainda. O pedido foi encaminhado direto pra Deus.
- Olha sua santidade, eu vim aqui na maior religiosidade pra ver se o senhor aliviava minha dívida, mas to vendo que nossa conversa não ta evoluindo. Não teria como o senhor chamar o Bispo, o Cardeal ou alguém que tenha mais influência lá em cima?
- Todos são iguais perante Deus.
- Então por que o senhor também não tem um Papa-Móvel blindado?
- Desculpe...eu preciso me preparar pra missa. Mas antes, por favor me diga, qual foi o motivo da sua promessa?
- Vestibular. Se eu passasse pra Veterinária no primeiro semestre.
- E você passou?
- Ainda nem fiz a prova, mas já tô arrependida da promessa.
- Hahahahaha. Perdão, perdão. Hahahaha.
- Padre, o senhor está rindo? Isso não é anti-ético não?
- Filha, esqueça que eu sou um padre e escute um conselho de amigo.
- Sou toda ouvidos.
- Você está em dúvida entre duas coisas que, na minha opinião, não deviam nem ser comparadas. Afinal, o que é um chocolate diante de um concurso que vai definir toda a sua vida?
- O senhor tem razão. Ano que vem eu faço vestibular de novo.
- Não adianta. Sempre sobra uma melequinha.
- Mas é tão pouquinho, seu padre.
- Promessa é promessa.
- O que Deus vai ganhar se eu deixar de comer chocolate?
- Você fez uma promessa. E prometer é abrir mão de uma coisa para conseguir outra.
- Mas eu não entendo por que é pecado comer chocolate?
- Não é pecado comer chocolate. Pecado é quebrar uma promessa que, no seu caso, foi não comer chocolate.
- Se em vez de chocolate, eu tivesse dito beterraba, a promessa também funcionaria?
- Você ama beterraba?
- Blargh, detesto.
- Então não adianta. É preciso que seja um sacrifício.
- Sexo!?
- Por favor senhorita, isso aqui é casa de Deus!
- Os cientistas ingleses provaram que o prazer de comer chocolate se compara ao de fazer sexo. Eu passo dois anos sem transar e pronto, vai ter sido um sacrifício do mesmo jeito.
- Você já prometeu que seria chocolate. Agora é tarde.
- Mas na hora da promessa, eu falei “chocolate” tão baixinho, padre. Mal deve ter dado pra escutar lá de cima.
- E você pediu para que santo, minha filha?
- Pedi pra santo nenhum não.
- Complicou mais ainda. O pedido foi encaminhado direto pra Deus.
- Olha sua santidade, eu vim aqui na maior religiosidade pra ver se o senhor aliviava minha dívida, mas to vendo que nossa conversa não ta evoluindo. Não teria como o senhor chamar o Bispo, o Cardeal ou alguém que tenha mais influência lá em cima?
- Todos são iguais perante Deus.
- Então por que o senhor também não tem um Papa-Móvel blindado?
- Desculpe...eu preciso me preparar pra missa. Mas antes, por favor me diga, qual foi o motivo da sua promessa?
- Vestibular. Se eu passasse pra Veterinária no primeiro semestre.
- E você passou?
- Ainda nem fiz a prova, mas já tô arrependida da promessa.
- Hahahahaha. Perdão, perdão. Hahahaha.
- Padre, o senhor está rindo? Isso não é anti-ético não?
- Filha, esqueça que eu sou um padre e escute um conselho de amigo.
- Sou toda ouvidos.
- Você está em dúvida entre duas coisas que, na minha opinião, não deviam nem ser comparadas. Afinal, o que é um chocolate diante de um concurso que vai definir toda a sua vida?
- O senhor tem razão. Ano que vem eu faço vestibular de novo.
25 de set. de 2007
A insônia
Digamos que minha casa estivesse em chamas.
E antes de correr feito um louco ensandecido,
eu tivesse tempo de salvar uma única coisa.
Não tenho a menor dúvida.
Eu salvaria o meu edredon preto.
Não é que eu seja a pessoa mais materialista do mundo.
É só uma supertição boba.
Coloquei na cabeça que nunca vou conseguir dormir,
se não estiver com o meu edredon preto.
Acontece que essa teoria acaba de ir pro espaço.
São 2 horas da manhã e ainda não peguei no sono.
Logo na véspera do Casamento do Enrico.
Logo eu sendo o padrinho do noivo.
Essa ansiedade ta tirando o meu sono.
Talvez se eu não ficar tão ansioso, eu consiga.
Mas só a idéia de não ficar ansioso, me deixa ainda mais ansioso.
Melhor ligar o rádio e ouvir uma música lenta pra acalmar.
“Bom dia, queridos ouvintes”, berra o locutor.
Quer ver uma coisa que me tira do sério? É isso.
O cara dar bom dia só porque passou da meia noite.
Porra, bom dia é depois que a pessoa acorda e pronto.
Meu Deus, já ta clareando. Deve ser quase de manhã.
Não olhe pro relógio, não olhe pro relógio, não olhe.
Merda 5 horas da manhã.
Eu sabia que não devia ter olhado pro relógio.
Agora é que a minha ansiedade vai aumentar mesmo.
E eu ainda tava querendo acordar uma hora mais cedo
pra correr na praça. Já vi que vai ser impossível.
Pior, ainda vou pro casamento com olheiras. Eu mereço.
Tudo bem, não corro e durmo uma hora a mais.
Melhor: não corro, não tomo café e chego atrasado no trabalho.
Assim posso acordar duas horas mais tarde.
Mas é pouco, considerando que eu devia estar dormindo há 4 horas.
Já sei. Não corro, não tomo café e não vou pro trabalho.
Pronto. A ansiedade passou.
E antes de correr feito um louco ensandecido,
eu tivesse tempo de salvar uma única coisa.
Não tenho a menor dúvida.
Eu salvaria o meu edredon preto.
Não é que eu seja a pessoa mais materialista do mundo.
É só uma supertição boba.
Coloquei na cabeça que nunca vou conseguir dormir,
se não estiver com o meu edredon preto.
Acontece que essa teoria acaba de ir pro espaço.
São 2 horas da manhã e ainda não peguei no sono.
Logo na véspera do Casamento do Enrico.
Logo eu sendo o padrinho do noivo.
Essa ansiedade ta tirando o meu sono.
Talvez se eu não ficar tão ansioso, eu consiga.
Mas só a idéia de não ficar ansioso, me deixa ainda mais ansioso.
Melhor ligar o rádio e ouvir uma música lenta pra acalmar.
“Bom dia, queridos ouvintes”, berra o locutor.
Quer ver uma coisa que me tira do sério? É isso.
O cara dar bom dia só porque passou da meia noite.
Porra, bom dia é depois que a pessoa acorda e pronto.
Meu Deus, já ta clareando. Deve ser quase de manhã.
Não olhe pro relógio, não olhe pro relógio, não olhe.
Merda 5 horas da manhã.
Eu sabia que não devia ter olhado pro relógio.
Agora é que a minha ansiedade vai aumentar mesmo.
E eu ainda tava querendo acordar uma hora mais cedo
pra correr na praça. Já vi que vai ser impossível.
Pior, ainda vou pro casamento com olheiras. Eu mereço.
Tudo bem, não corro e durmo uma hora a mais.
Melhor: não corro, não tomo café e chego atrasado no trabalho.
Assim posso acordar duas horas mais tarde.
Mas é pouco, considerando que eu devia estar dormindo há 4 horas.
Já sei. Não corro, não tomo café e não vou pro trabalho.
Pronto. A ansiedade passou.
4 de set. de 2007
A estória que eu sempre quis contar
Um deles tinha o nariz redondo e cheio de espinhas, a testa enrugada e uma barba grisalha que ia até quase a altura do peito. O outro era idêntico. À exceção da barba, onde ao contrário do seu irmão, o preto predominava sobre o branco. Era impossível estar num mesmo ambiente e não notar a presença daqueles dois gêmeos que há muito passaram dos setenta anos. A cidade inteira os conhecia pelo curioso apelido de Irmãos Evento. Não havia um único acontecimento em que eles não estivessem presentes. Festa de casamento, exposição fotográfica, vernissage, posse do novo governador. Se era um evento, lá estava a dupla. Eram pobres e nunca receberam um único convite, mas a seu favor, contavam com uma cara de pau inigualável e o mesmo terno azul surrado de sempre. Não tinha segurança ou guarda-costas com coragem suficiente para impedir a entrada dos irmãos. Muitas vezes a agenda de eventos ocupava o dia inteiro. Café da manhã para nomeação do novo presidente da Federação das Indústrias, almoço com os médicos participantes do Congresso Internacional de Otorrinolaringologia e de noite uma coisa mais leve, que tanto podia ser um baile de debutante, quanto a confraternização de uma empresa qualquer. Aos setenta e tantos anos, um dos irmãos acabou morrendo de tuberculose. Como tinham virado personagens quase folclóricos, a prefeitura organizou um grande funeral. Toda a cidade compareceu. Entre políticos, artistas, doutores e personalidades, uma ausência foi marcante: a do irmão do falecido. Justo o de barba mais preta.
14 de ago. de 2007
O primeiro dia
Será que eu estacionei na vaga do chefe?
Não, não. Não é possível.
Seria muito azar pra um primeiro dia só.
Digo, pra um primeiro dia de trabalho só.
Isso está me lembrando a época do colégio.
1994, Oitava Série A da Escola Pio XII.
Era o primeiro dia de aula e como eu não conhecia ninguém,
achei por bem chegar com duas horas de antecedência.
Assim, vendo os alunos entrarem um de cada vez a ansiedade seria menor.
Era o princípio das doses homeopáticas sendo aplicado na prática.
Princípio que teria funcionado se não fosse por um detalhe infeliz:
Eu tinha entrado na sala errada. O resultado já dá pra imaginar.
Fui obrigado a me dirigir para a sala certa que a essas alturas já estava completamente lotada e a professora, ah aquela desgraçada, ainda fez questão que eu explicasse pra turma inteira o motivo do meu atraso.
Até hoje, esse é um trauma que ainda não foi superado.
Agora estou aqui no primeiro dia de trabalho, quase 20 anos depois.
Cheguei à 7:30 pra um expediente que só começa depois das 9:00.
Por enquanto só conheci o Joílson, o manco da limpeza.
Como ainda não sei o meu lugar, resolvo ficar perambulando pela sala.
Observando os porta-retratos nas mesas e os adesivos nos monitores,
vou tentando deduzir as personalidades de cada um dos meus colegas.
É quando começa a bater a insegurança: será que eu estou bem vestido?
Ou pior, será que estou com mau hálito?
Sim, porque o primeiro dia de trabalho define toda sua reputação dentro de uma empresa. Principalmente quando o assunto são os apelidos.
Uma falha no primeiro dia e você fica conhecido para sempre como o cara do bafo, o cara da calça rasgada ou ainda como o cara que deu em cima da recepcionista.
Aos poucos, as pessoas vão entrando na sala.
O nervosismo atinge níveis cavalares. Fico torcendo por uma catástrofe.
Um incêndio no prédio vizinho. Joílson entrando com o corpo em chamas.
Qualquer coisa que tirasse a atenção sobre o novato, nesse caso, eu mesmo.
Acontece que para minha surpresa a sensação de desespero vai diminuindo.
Meus novos colegas parecem ser a simpatia em pessoa.
Começo a aceitar a idéia de cada um deles vai fazer o máximo pra que eu me sinta à vontade nesse novo emprego. Melhor pra mim.
O chefe entra na sala e, sem fazer cerimônia, grita pra todo mundo ouvir:
Quem é o filha da puta do Corsa preto?
Não, não. Não é possível.
Seria muito azar pra um primeiro dia só.
Digo, pra um primeiro dia de trabalho só.
Isso está me lembrando a época do colégio.
1994, Oitava Série A da Escola Pio XII.
Era o primeiro dia de aula e como eu não conhecia ninguém,
achei por bem chegar com duas horas de antecedência.
Assim, vendo os alunos entrarem um de cada vez a ansiedade seria menor.
Era o princípio das doses homeopáticas sendo aplicado na prática.
Princípio que teria funcionado se não fosse por um detalhe infeliz:
Eu tinha entrado na sala errada. O resultado já dá pra imaginar.
Fui obrigado a me dirigir para a sala certa que a essas alturas já estava completamente lotada e a professora, ah aquela desgraçada, ainda fez questão que eu explicasse pra turma inteira o motivo do meu atraso.
Até hoje, esse é um trauma que ainda não foi superado.
Agora estou aqui no primeiro dia de trabalho, quase 20 anos depois.
Cheguei à 7:30 pra um expediente que só começa depois das 9:00.
Por enquanto só conheci o Joílson, o manco da limpeza.
Como ainda não sei o meu lugar, resolvo ficar perambulando pela sala.
Observando os porta-retratos nas mesas e os adesivos nos monitores,
vou tentando deduzir as personalidades de cada um dos meus colegas.
É quando começa a bater a insegurança: será que eu estou bem vestido?
Ou pior, será que estou com mau hálito?
Sim, porque o primeiro dia de trabalho define toda sua reputação dentro de uma empresa. Principalmente quando o assunto são os apelidos.
Uma falha no primeiro dia e você fica conhecido para sempre como o cara do bafo, o cara da calça rasgada ou ainda como o cara que deu em cima da recepcionista.
Aos poucos, as pessoas vão entrando na sala.
O nervosismo atinge níveis cavalares. Fico torcendo por uma catástrofe.
Um incêndio no prédio vizinho. Joílson entrando com o corpo em chamas.
Qualquer coisa que tirasse a atenção sobre o novato, nesse caso, eu mesmo.
Acontece que para minha surpresa a sensação de desespero vai diminuindo.
Meus novos colegas parecem ser a simpatia em pessoa.
Começo a aceitar a idéia de cada um deles vai fazer o máximo pra que eu me sinta à vontade nesse novo emprego. Melhor pra mim.
O chefe entra na sala e, sem fazer cerimônia, grita pra todo mundo ouvir:
Quem é o filha da puta do Corsa preto?
17 de jul. de 2007
Fique rico agora.
Esqueça o índice da Bovespa.
Esqueça o MBA em Administração da FGV.
Esqueça os livros sobre marketing de Philip Kotler.
O caminho para o sucesso pode ser mais simples do que se imagina.
Eu mesmo encontrei um: construir um heliponto.
Não tem erro.
Segue o raciocínio.
Quais as primeiras palavras que saem da sua boca ao entrar na casa de uma pessoa muito, mas muito rica mesmo?
Deixe-me adivinhar: “caramba, a casa tem até heliponto”.
A casa pode ter três piscinas olímpicas, jardins suspensos, cascatas artificiais, ofurôs ao ar livre. Mas nada disso adianta.
O heliponto vai sempre roubar a cena.
O que muita gente não sabe, no entanto, é que o preço para se construir um heliponto é ínfimo, é ridículo, é é é, olhe, sei não viu?
Uma pesquisada rápida no google e alguns telefonemas para lojas de construções foram suficientes pra pegar a receita de um heliponto:
Dois sacos de cimento, quatro lâmpadas com bocais, uma lata de tinta e dez metros de fio. Total: cerca de 300 reais.
Então aí vai meu conselho: separe 300 reais e construa seu próprio heliponto.
Você só precisa de um espaçozinho de cerca de 20 metros quadrados.
Pode ser ali, naquele seu quintalzinho mesmo.
E mesmo que nunca tenha pousado um único helicóptero sequer,
Sua casa vai ser a mais comentada e valorizada do bairro
Imagina então quando você for anunciá-la nos classificados.
Vendo casa. Excelente heliponto, 1 quarto, 1 cozinha americana e 1 banheiro. Sem garagem.
Não dou nem cinco minutos para o telefone tocar com dezenas de propostas milionárias. Faça o teste na sua casa e comprove.
Esqueça o MBA em Administração da FGV.
Esqueça os livros sobre marketing de Philip Kotler.
O caminho para o sucesso pode ser mais simples do que se imagina.
Eu mesmo encontrei um: construir um heliponto.
Não tem erro.
Segue o raciocínio.
Quais as primeiras palavras que saem da sua boca ao entrar na casa de uma pessoa muito, mas muito rica mesmo?
Deixe-me adivinhar: “caramba, a casa tem até heliponto”.
A casa pode ter três piscinas olímpicas, jardins suspensos, cascatas artificiais, ofurôs ao ar livre. Mas nada disso adianta.
O heliponto vai sempre roubar a cena.
O que muita gente não sabe, no entanto, é que o preço para se construir um heliponto é ínfimo, é ridículo, é é é, olhe, sei não viu?
Uma pesquisada rápida no google e alguns telefonemas para lojas de construções foram suficientes pra pegar a receita de um heliponto:
Dois sacos de cimento, quatro lâmpadas com bocais, uma lata de tinta e dez metros de fio. Total: cerca de 300 reais.
Então aí vai meu conselho: separe 300 reais e construa seu próprio heliponto.
Você só precisa de um espaçozinho de cerca de 20 metros quadrados.
Pode ser ali, naquele seu quintalzinho mesmo.
E mesmo que nunca tenha pousado um único helicóptero sequer,
Sua casa vai ser a mais comentada e valorizada do bairro
Imagina então quando você for anunciá-la nos classificados.
Vendo casa. Excelente heliponto, 1 quarto, 1 cozinha americana e 1 banheiro. Sem garagem.
Não dou nem cinco minutos para o telefone tocar com dezenas de propostas milionárias. Faça o teste na sua casa e comprove.
26 de jun. de 2007
E se?
Daqui da sacada desse antigo casarão, olhando meus netos brincarem de alguma coisa que não existia na minha época, é inevitável a pergunta: e se?
E se eu não tivesse ido passear na praia naquele domingo de 1920?
E se eu não tivesse me virado para trás, assim, só por instinto mesmo?
E se eu não tivesse visto a Vânia justo na hora que ela mexia no cabelo com aquele jeitinho encantador?
E se a gente não tivesse ido pra cama no final de semana seguinte?
E se a gente não tivesse se casado, tido filhos e, por conseqüência, netos?
Uma coisa é certa: eu não estaria aqui, agora, olhando justamente para eles. Poderiam ser outros netos, claro, mas nunca iguaizinhos a esses.
E se em todos esses 87 anos de vida, eu tivesse tomado decisões diferentes das que acabei tomando?
Se em vez de Letras em Cuba, eu tivesse feito Engenharia em Lisboa.
Se em vez daquela moto, eu tivesse economizado para um carro.
Se em vez da prima Raquel, eu tivesse passado a mão na bunda da prima Kika.
Será que ainda assim minha tia teria me expulsado de casa?
Acredito que não. A Kika era feia, mal amada e pra completar, ainda tinha a bunda pra dentro. Eu teria feito, sim, era uma boa ação pra pobre coitada.
A dedução apesar de soar estranha, é bastante convincente:
O ser humano nada mais é do que a soma de todos “E se?” que nunca aconteceram. Um tanto pessimista, eu admito.
Assim, eu sou o cara que não fez Engenharia em Lisboa, que não comprou um carro e que não passou a mão na bunda da Prima Kika. Uffa.
É como deduzir a personalidade de uma pessoa só pelas coisas que ela joga fora. Se você encontra uma playboy da Paloma Duarte no lixo do morador do 306, por exemplo, ou ele virou frango ou…quer dizer, não tem outra possibilidade não, o cara virou frango mesmo.
E se eu não tivesse ido passear na praia naquele domingo de 1920?
E se eu não tivesse me virado para trás, assim, só por instinto mesmo?
E se eu não tivesse visto a Vânia justo na hora que ela mexia no cabelo com aquele jeitinho encantador?
E se a gente não tivesse ido pra cama no final de semana seguinte?
E se a gente não tivesse se casado, tido filhos e, por conseqüência, netos?
Uma coisa é certa: eu não estaria aqui, agora, olhando justamente para eles. Poderiam ser outros netos, claro, mas nunca iguaizinhos a esses.
E se em todos esses 87 anos de vida, eu tivesse tomado decisões diferentes das que acabei tomando?
Se em vez de Letras em Cuba, eu tivesse feito Engenharia em Lisboa.
Se em vez daquela moto, eu tivesse economizado para um carro.
Se em vez da prima Raquel, eu tivesse passado a mão na bunda da prima Kika.
Será que ainda assim minha tia teria me expulsado de casa?
Acredito que não. A Kika era feia, mal amada e pra completar, ainda tinha a bunda pra dentro. Eu teria feito, sim, era uma boa ação pra pobre coitada.
A dedução apesar de soar estranha, é bastante convincente:
O ser humano nada mais é do que a soma de todos “E se?” que nunca aconteceram. Um tanto pessimista, eu admito.
Assim, eu sou o cara que não fez Engenharia em Lisboa, que não comprou um carro e que não passou a mão na bunda da Prima Kika. Uffa.
É como deduzir a personalidade de uma pessoa só pelas coisas que ela joga fora. Se você encontra uma playboy da Paloma Duarte no lixo do morador do 306, por exemplo, ou ele virou frango ou…quer dizer, não tem outra possibilidade não, o cara virou frango mesmo.
29 de mai. de 2007
Eu tenho 9 anos
E não confio em nada que seja preso por ventosas
Tenho muito ciúmes do Chico Buarque
E checo o despertador cinco vezes antes de dormir
Eu tenho 9 anos
E estiro o dedo se alguém me corta no trânsito
Acredito que os melhores detergentes são os com cores fosforescentes
E acho que os minutos passam mais depressa num relógio digital do que num analógico.
Eu tenho 9 anos
E sinto muita vergonha pelos outros
Principalmente quando os outros estão dando entrevistas
Ou discursando para multidões
Eu tenho 9 anos
E acho que existem nomes que só servem para crianças e outros que só servem para adultos.
Eu tenho 9 anos
E não entendo porque o msn tem “em horário de almoço”
Mas não tem “em horário de janta”
Eu tenho 9 anos e tomo sustos antes de pegar no sono
Eu tenho 9 anos e já estou com abuso desse texto
Tenho muito ciúmes do Chico Buarque
E checo o despertador cinco vezes antes de dormir
Eu tenho 9 anos
E estiro o dedo se alguém me corta no trânsito
Acredito que os melhores detergentes são os com cores fosforescentes
E acho que os minutos passam mais depressa num relógio digital do que num analógico.
Eu tenho 9 anos
E sinto muita vergonha pelos outros
Principalmente quando os outros estão dando entrevistas
Ou discursando para multidões
Eu tenho 9 anos
E acho que existem nomes que só servem para crianças e outros que só servem para adultos.
Eu tenho 9 anos
E não entendo porque o msn tem “em horário de almoço”
Mas não tem “em horário de janta”
Eu tenho 9 anos e tomo sustos antes de pegar no sono
Eu tenho 9 anos e já estou com abuso desse texto
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